O mar, esverdeado, meio
cinza, prateado, com o sol refletido ou a lua, as ondas pulsando
erroneamente na areia macia. O mar que gela meus ossos, que gela meu
sangue, atravessando minha carne com pinças de gelo, que me refresca
no verão bruto, liberando minha mente dos pensamentos sufocantes
congestionados de suor, dos fatos calorosos do verão, das tarefas,
compromissos, deveres que se tem um prazo, dos problemas enfrentados
em casa, na escola, na rua. O mar de Florianópolis que banha toda a
gente, que banha não só os pescadores ou até os burgueses que tem
coragem para enfrentar a fúria do deus dos mares, mas também os
estrangeiros que se enchem de prazer, de uma real felicidade ao
entrarem no mar gélido conversando em uma língua não inteligível
com seus familiares sobre a ardência da vermelhidão que predomina
em sua pele.
Nunca achei que fosse
aqui que ia terminar, escrevendo nesse surrado pedaço de papel, com
uma caneta de um banco qualquer. Nunca achei que iria acabar aqui, no
lugar em que minha mente funciona com clareza e exatidão, nem mesmo
o barulho urgente das ondas que navegam e acabam por se perder na
imensidão quente e aconchegante de areia, esse som na verdade só me
ajuda a focar, nas coisas boas da vida, nas lembranças dos verões
distantes em que eu ria livremente me livrando de todos os pesares...
Como era boa a época em que não haviam preocupações, as longas
férias de verão, cheia de amigos e sorrisos, abraços, de contato,
de calor, de água, água do mar que se posiciona na minha frente
nesse instante, rindo com luxúria da minha face coberta por causa do
vento sul que sopra, sem se conter arrasta a areia, fazendo com que
ela ri chicoteie na minha pele, deixando-me marcas avermelhadas na
perna. A espuma branca se formando nas ondas maciças, brilhando com
um poder pomposo que se apodera de seus átomos intensificando a
sensação de liberdade.
Não estou certa do
que faço, minha mente trabalha bem neste ambiente puro, mas meus
atos são impulsionados por algo mais forte, que se abate sobre minha
alma deixando rastros de uma fraqueza vulgar. O medo está se
apoderando de minha mente aos poucos, está corroendo minhas ideias,
meus objetivos. Para que viver se não se tem um objetivo? Para que
viver... A vida em si não faz muito sentido para mim, digo para que
com qual finalidade tanto esforço, tanto estudo, para depois poder
arranjar um bom emprego que te prenda em uma vida maçante, com uma
rotina diária. Os momentos de descontração aos poucos vão se
mostrando mais raros, tornando a felicidade uma regalia concedida
para poucos. A felicidade então seria o único motivo real para o
qual se vale a pena viver, mas se nem isto lhe é permitido durante
sua estadia nesse mundo para que então aproveitar essa passagem.
Os pensamentos que
agora mais do que nunca, depois de botá-los no papel, escrevê-los
com tinta estão mais convictos, mais reais. A realidade é outra
abstração que voa pelas ideias, deixando um rastro inseguro, o qual
a maioria ignora. Ótimos ignorantes são essa gente. A veracidade é
difusa a realidade, a veracidade foi inventada pelo homem, para que
tenha poder, a verdade se torna tão irreal, tão diferente do que
realmente se é. O homem usa a veracidade para controlar os
pensamentos do resto dessa raça, fazendo-os julgar que a verdade é
o que eles querem que sejam, ou pelo menos o que é melhor para eles
que sejam. Se a maioria acredita em algo, aquilo quase que
automaticamente se torna verdade.
Já a realidade é
algo natural, imutável, a realidade não é só uma, é sim muitas
coisas, não é por que uma coisa é imaginaria que não é real, ela
pode ser real dentro da sua imaginação, no contexto certo, tudo
pode ser real. O mar é real, o mar é mais que real, o mar é um
imaginário real. Um imaginário real, isso soa tão bem nos meus
ouvidos, afinal o que mais tem importância na minha vida são as
coisas que em minha mente prego serem as mais imaginárias, mas se no
contexto da minha mente elas são reais, então essa pode se tornar
minha realidade, então tudo que eu acreditava, toda a verdade que eu
considerava certa não passa de mentiras inventadas pelo vírus que
está tentando corroer minhas ideias. Acho que minha imaginação
está em uma tentativa de proteger meus pensamentos, proteger o que
mais lhe é precioso, pois tem a necessidade vital disto para se
orientar.
As coisas mais
importantes para mim, essas que são tão imaginariamente reais são
as palavras, as quais estou usando agora para escrever essa reflexão
que provavelmente está salvando minha vida. Pois tudo que eu quero
neste instante (julgo ser imaginário real também, o instante) é
entrar nesse mar rebelde que repousa violentamente na areia aqui logo
ali, na minha frente, um pouco da água que bate surrante contra a
praia escapa pelo ar, dando alguns mortais estranhos e chegando na
folha de papel, na minha face, quem me vê, de perto, porém
emocionalmente de longe pode pensar que estou chorando, afinal não
se é muito diferenciável lágrimas da água do mar, as duas são
salgadas, puras, ambas pesam, estão se libertando de uma pisão,
pesam todo o peso que está indo embora com elas.
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