Uma menina. Baixinha. Cansada. Ela chegou da escola as 19h, o sol já tinha se posto e a lua estava meio torta por que ainda não estava cheia. Tinham nuvens no céu, elas cobriam a maioria das estrelas, menos uma que brilhava tão intensamente que a luz passava pelas nuvens e então você poderia vê-la aqui da terra. A menina chegou caminhando pela rua, estava cansada do dia cheio na escola. Suas costas estavam doendo levemente por causa do peso da mochila no seu ombro, e uma mecha de cabelo azul atrapalhava a visão de seus pés enquanto ela ia chegando perto de casa com passos lentos. Quando chegou no portão, estava com preguiça de pegar a chave para destrancar o cadeado, então simplesmente jogou a mochila por cima do portão, apoiou seu pé na grade onde já havia uma deformação no formato de seu pé e pulou.
A menina entrou em casa, tirou os sapatos, jogou a mochila em cima da cama, foi até o banheiro dobrou a manga de sua camiseta listrada e lavou as mãos. Com as mãos limpinhas e de pés descalços, ela saiu pela porta de sua casa, desceu os degraus que separavam a varanda da grama e sentiu a terra em sua sola do pé. Tanto a grama quanto a terra eram frias, frias, mas aconchegantes. Ela caminhou até uma árvore, a árvore era espaçosa, os galhos haviam crescido de uma forma descontrolada, porém o tronco era fino. A árvore tinha espinhos e folhas bem verdes. Frutas laranjas e gordas pendiam de seus galhos. Limões. Ela ficou um tempo admirando o contraste do laranja com o verde, mesmo que a unica iluminação ali fosse a da lua, portanto mal dava para diferenciar as cores. Ela não se importava. Passou então a escolher, o limão perfeito deveria ser maduro, mas nem tanto, e grande para render. Seus olhos vagavam de um lado para o outro, analisando cada uma das belas frutas. Até que se deparou com o perfeito. A menina arrancou o limão, mas como era meio estabanada e não estava prestando muita atenção em sua ação pois pensava apenas na deliciosa limonada que faria em seguida, acabou por furar seu dedo em um dos espinhos proeminentes do galho. por reflexo levou seu dedo diretamente para a boca, quase deixando o limão cair. O gosto do sangue era igual ao de ferro, o mesmo gosto de quando você chupa uma chave. O furo ardia levemente, mas a menina acabou por não dar muita bola para ele, e voltou logo para dentro de casa.
Com o limão em mãos, ela só precisou pegar sua xícara preferida, uma pequena peneira vermelha, uma faca, uma garrafa de água gelada, açúcar e uma colher. Com a faca ela cortou o limão, posicionou a peneirinha na xícara, deixando as bordas em um alinhamento perfeito e espremeu o limão, fazendo todo o suco deixar a carcaça e escorrer pelas suas mão e para a peneira. Nesse momento o corte que ela havia feito antes ardeu um pouco, mas a tarefa da menina era importante demais para ser abandonada por uma simples ardência, portanto ela continuou espremendo o limão, para aproveitar cada gota do suco que ele continha. A mesma coisa foi feita com a outra metade da fruta, e então ela tirou a peneira de cima da xícara, jogou as sementes que haviam sido ali barradas no lixo, e partiu para a próxima etapa. Ela pegou a garrafa de água e encheu a xícara com ela, deixando a cor do suco que era de um laranja mais forte bem clarinha. Só faltava um pouco de açúcar, então três colheres do ingrediente foram adicionadas pela menina, que depois misturou o líquido.
Estava pronta, gelada e adoçada, a bebida preferida daquela menina. Uma limonada feita com o limão do pé de sua casa, num final do dia depois de muito pensar na escola e voltar em pé em um ônibus lotado lendo seu livro, depois de caminhar a rua de terra olhando para o céu. Ela bebeu e ficou feliz, todo o esforço do dia valia a pena ela percebeu, ao pensar sobre o assunto enquanto saboreava aquela deliciosa bebida.
Na Farraige significa o oceano em irlandês... o mar, o oceano é profundo e imprevisível, salgado e maravilhoso...